Linguagem, fala e voz no autismo.
- 27 de fev. de 2016
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Considerando o que foi produzido até o momento sobre o autista, fica a questão de como trabalhar com eles para que possam fazer um laço suportável com a língua, permitindo sua inserção na sociedade de modo menos doloroso e angustiante.
As conjecturas relacionando o funcionamento subjetivo dos autistas à maneira como estes se articulam à linguagem advém da imagem popular destas crianças como seres mudos tapando suas orelhas. Contudo, como sublinhou Lacan nos anos 70, ao tampar as orelhas para algo que se está falando, o autista mostra já estar no pós-verbal, pois esta ação é uma proteção contra o verbo. Os objetos pulsionais, produzidos pelos recortes da linguagem sobre o corpo causam angústia a estes sujeitos. Há uma presença excessiva destes objetos, a qual os leva a colocar-se em um intenso trabalho de regulagem e distanciamento. Deste modo, mesmo que a fala esteja interrompida, eles não estão banidos da linguagem e, até por isso, apresentam formas distintas para lidar com ela.
De acordo com a hipótese de Laznik, o objeto voz é o primeiro objeto da pulsão oral a se constituir. Primordial ao ser falante, é no entorno deste primeiro vazio que se organiza o circuito pulsional inerente ao funcionamento do ser falante. A voz, munida da enunciação e do endereçamento, permite o laço com o outro agente do campo da linguagem. Desta forma, a criança pode estruturar em uma rede de significantes tudo o que escutou a partir do quinto mês de gestação. Significantes estes que são vestígios dos traços já um tanto apagados daquilo que chegou aos ouvidos do feto e o marcou.
No entanto, a voz do Outro só será incorporada com o consentimento da criança, pois ainda que a orelha nunca se feche e a criança não seja capaz de não ouvir; ela pode se recusar a dar este consentimento. A concessão da alienação à dimensão musical da voz do Outro abre caminho para a alienação primordial ao campo da linguagem, a qual implica o terceiro tempo da pulsão, o tempo do se fazer ao Outro. Entretanto, ao caminhar em direção à falta, a criança perde a relação imediata com a voz, marca da foraclusão primordial. Ou seja, a voz enquanto som puro é perdida no momento em que esta se torna objeto da pulsão, passando a ser som para – endereçada a alguém.
Desta forma, para entrar no campo da linguagem a criança precisa realizar a operação de alienação, caminhando a partir do barulho real até chegar ao som e a música; e a operação de separação, saindo da música para chegar à fala. A fala é, assim, resultado de um modo de estruturação do funcionamento psíquico e é alcançada antes dele sobrevir enquanto sujeito do inconsciente.
Para ser esse objeto pulsional, a voz deve ser capaz de manter o laço entre o suposto sujeito e o Outro. Assim, a composição deste objeto se dá por intermédio de um jogo no qual se associa escuta e ensurdecimento. O autista não aceita fazer este jogo. É um bebê aparentemente desinteressado pelo que dá prazer ao Outro. Demonstrando desde muito cedo sua opção por não se permitir alienar aos significantes do campo deste, ao se evadir de tudo aquilo que sugere uma organização pulsional. Faz-se obstáculo aos que tentam endereçar-lhe palavras, pois, ao notar esta voz que o chama, o sujeito não se deixa ensurdecer para ela. Sua recusa ativa aponta o seu recuo perante o troumatisme – o trauma da entrada no campo da linguagem.
Não é que a criança não seja capaz de se comunicar, compreender ou se fazer compreender. Quando isto lhe é preciso ela é capaz de fazer por meio de um esforço. A questão é que há uma recusa na fala onde a dimensão enunciativa está presente – a qual é possível notar desde o balbucio dos bebês. As ecolalias e estereotipias verbais comuns aos autistas são resultado desta desconexão entre a dimensão subjetiva e a fala. Tal recusa e esta desconexão podem ser relacionadas à imersão no real destes.
No real não há espaço para a falta, o furo. Por isso os orifícios do seu corpo estão fechados e a pulsão fica impedida de realizar seus trajetos, não há trocas. O sujeito repete o S1, o Um, – ou uma conduta ou um circuito – fazendo com que tudo siga uma ordem imutável, absoluta e repetitiva. Ele não suporta o valor de portador da marca da singularidade no objeto da voz, recusando a interlocução. Afinal, por não ter furo, não há o que se possa extrair para colocar no lugar deste. Desta forma, ao falar o sujeito sente-se esvaziado, como observou J.-Cl. Maleval – ou, em outras palavras, o autista vive o que se produz para dar vazão ao gozo que invade o corpo como uma automutilação.
No caso Robert de Rosine Lefort, o significante O lobo! é um pedaço do real repetido constantemente à qualquer coisa que se possa nomear. É uma palavra interrompida, um S1 retirado da articulação com um S2. Uma palavra quase alucinatória, que escapa das leis do simbólico. Por pronunciá-la, o menino é O lobo!. Entretanto, ela não é ele, nem qualquer outro; é o quer que seja que se possa nomear.
Nota-se, aqui, o enodamento desta palavra interrompida com um eu totalmente caótico. Quando Robert consegue produzir uma negatividade gritando a palavra para o vaso, ele cria um furo possível ao real em que nada falta. Munido deste furo ele pode ampliar seu mundo, pois se torna capaz de jacular outras palavras. Logo, é a partir de O lobo! Que ele pode se construir e o diálogo se instaura, pois este significante real-lizado pode ser elaborado na análise, saindo do real até chegar ao seu avesso - a negatividade.
Essa primeira expressão da qual a criança se serve ganha valor de nomeação no tratamento, ao fazer furo ela permite ao sujeito se autobatizar. Nota-se que esta ação
reflexiva faz acontecimento, ato. Enquanto tal, a palavra, O lobo!, não está articulada à troca, ela é uma primeira versão do que será o Um sozinho, S1, signifiant-tout-seul, apartado de outros significantes. É efeito do que é emitido pelo corpo.
Observa-se, portanto, que o tempo de lógico de constituição da voz própria – da voz objeto pulsional – não ocorre na criança autista. Todavia, isto não significa que esta não possa mais ser estabelecida. Até mesmo porque antes do seu nascimento não há como ela recusar escutar a voz do Outro. No entanto, o apagamento do traço, não se constitui, levando a criança a permanecer fixada ao S1 em seu funcionamento. Ela, então, coleta uma série de S1s que não fazem cadeia. Logo, apesar dessa constituição ser possível haverá sequelas do atraso com relação ao tempo cronológico esperado, frequentemente surgindo nos formatos que Maleval denominou de língua verbosa (apartada do Outro do significante), língua factual (de acumulação dos fatos) ou pelas frases espontâneas.
O tratamento psicanalítico pode apresentar novas possibilidades à sofrida escolha autista de ausentar-se da enunciação, pois ambiciona uma saída, se não da posição autística, ao menos do completo fechamento desta. No entanto, para escutar este sujeito, em seu modo particular de funcionamento, o analista deve esvaziar-se do seu gozo. Só assim, poderá ouvir suas meias palavras e ecolalias, ajudando o sujeito que está em uma posição anterior ao sujeito do inconsciente a constituir seu objeto pulsional voz.
Muitas recomendações são feitas para este percurso. Por exemplo, Pimenta, sugere – concordando com Kanner que pedia para deixarem os autistas quietos – que o analista ofereça-se como um Outro que não demande, recorrendo a sua douta ignorância; ou que ele demande junto a esta criança autista, apresentando-se como um auxiliar das criações dela, legitimando-as como produções de um sujeito suposto. De tal forma, no decorrer das sessões a criança pode testar novas possibilidades, utilizando-se do desejo do analista para estabelecer um novo modo de relacionar-se com a voz e para permitir-se escolher sua voz própria. Contudo, ao mesmo tempo, a autora recomenda que não se force a fala, mas que se busque objetos para exercerem a função de duplo e se prestarem ao papel da enunciação deslocada.
Enfim, não há uma única formula para fazer suportável o laço com a língua, mas diversas, que podem ou não funcionar de acordo com os recursos que o sujeito se permite usar. Assim como há uma escolha do sujeito em não enunciar, ele pode escolher fazê-lo, realizando com maestria, mas para tanto é interessante encontrar um parceiro que o auxilie na sua aproximação da linguagem e promova sua inserção na sociedade – seja por convocações, seja permitindo a criação de uma negatividade ou por intermédio de um duplo – de modo menos doloroso e angustiante possível para este sujeito autista.
Deste modo, é preciso trabalhar caso a caso.
Referencias Bibliográficas
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